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A filosofia como profecia secular e responsabilidade pública
Quando o templo público está em ruínas, o silêncio deixa de ser prudência.
Na apresentação do Memento para Moçambique, houve uma frase que, pela sua densidade simbólica e filosófica, ultrapassou imediatamente o contexto da circunstância.
Dom Ernesto Maguengue afirmou que eu deveria continuar a ser o nosso “profeta secular”: não rei, não sacerdote, mas profeta.

A frase é forte. E é ainda mais forte porque vem de um bispo. Poderia parecer, à primeira vista, apenas uma imagem feliz, uma metáfora elegante, uma forma generosa de caracterizar a função pública de um filósofo. Mas não foi isso que aconteceu. A formulação de Dom Ernesto transportava uma arquitectura conceptual muito mais profunda. Ela não dizia apenas algo sobre mim. Dizia algo sobre a própria filosofia. Dizia algo sobre aquilo que a filosofia deve ser quando nasce num país ferido, num tempo de incerteza e numa sociedade que procura ainda a sua linguagem comum.
Dom Ernesto não falou apenas como teólogo. Falou como alguém que, tendo atravessado a teologia, nunca abandonou a filosofia. Na sua intervenção, sentia-se o rigor de uma formação intelectual marcada pela disciplina do conceito, pela atenção à palavra justa e pela exigência de não confundir emoção com pensamento. Quem o escutou percebeu que não estava diante de uma leitura piedosa ou protocolar de um livro, mas diante de um exercício filosófico verdadeiro.
A sua apresentação foi, nesse sentido, fora do comum. Não se limitou a dizer o que o livro era. Foi mais longe. Do alto da sua cátedra episcopal, Dom Ernesto parecia dizer-nos o que deve ser a filosofia em Moçambique. Parecia recordar que a filosofia não é ornamento académico, nem luxo de especialistas, nem importação tardia de vocabulários alheios. A filosofia é uma forma de responsabilidade pública.
Ao dizer que o filósofo deve ser profeta secular, Dom Ernesto recusou duas tentações. A primeira é a tentação do rei. O rei representa o poder, a administração, o comando, a proximidade ao sistema. O rei governa, decide, distribui, conserva ou transforma por meio da autoridade institucional. A segunda é a tentação do sacerdote. O sacerdote representa a guarda do rito, a administração da continuidade simbólica, a consagração de uma ordem.
O filósofo, porém, quando é fiel à sua vocação mais exigente, não deve desejar governar como rei, nem consagrar como sacerdote. Deve permanecer nesse lugar difícil, exterior e necessário, a partir do qual se pode dizer ao poder aquilo que o poder não quer ouvir, e à comunidade aquilo que ela muitas vezes prefere esquecer.
É aqui que a imagem do profeta se torna decisiva.
O profeta não é aquele que prevê o futuro como adivinho. O profeta é aquele que lê o presente com tal intensidade que torna visível o futuro que nele se prepara. O profeta é aquele que rompe a falsa normalidade. É aquele que interrompe a anestesia colectiva. É aquele que recorda ao povo a sua responsabilidade quando o povo se refugia no esquecimento. É aquele que recorda aos poderosos a sua dívida quando os poderosos se escondem atrás da linguagem da ordem.
Foi por isso que a evocação do profeta Ageu se tornou fecunda. Ageu é o profeta do templo. A sua palavra é breve, mas incisiva. Ele não precisa de grandes sistemas para dizer o essencial. Encontra uma comunidade regressada do exílio, dividida entre a reconstrução da sua vida privada e o abandono da Casa comum, e obriga-a a perguntar: como pode cada um habitar confortavelmente a sua casa enquanto o templo permanece em ruínas?
Transportada para Moçambique, a pergunta ganha uma força particular.
O templo, aqui, não é apenas o lugar religioso. O templo é a coisa pública. É o espaço comum. É a República. É a escola, o hospital, a estrada, a justiça, a palavra pública, a memória partilhada, a dignidade dos cidadãos, a possibilidade de cada moçambicano se reconhecer no país que o nomeia. O templo é tudo aquilo que não pertence a ninguém em particular porque deve pertencer a todos.
E é precisamente este templo que se encontra, tantas vezes, em ruínas.

Quando Dom Ernesto fala do profeta secular, ele está a indicar que a filosofia tem uma função pública de reconstrução. Não uma reconstrução técnica, administrativa ou partidária, mas uma reconstrução da linguagem através da qual um povo volta a compreender-se. Uma sociedade não se reconstrói apenas com estradas, pontes, instituições e eleições. Reconstrói-se também com palavras. Precisa de alfabeto, vocabulário e gramática. Precisa de nomes para as suas feridas. Precisa de conceitos para as suas injustiças. Precisa de categorias para distinguir paz e armistício, conciliação e reconciliação, pertença e exclusão, Estado e República, poder e serviço, memória e esquecimento.
Esta foi uma das dimensões mais altas da leitura de Dom Ernesto. Ele compreendeu que o Memento para Moçambique não é simplesmente um livro que oferece informação. É um livro que provoca. Não vem acrescentar dados ao que já sabemos. Vem obrigar-nos a reconhecer aquilo que sabemos e que, mesmo assim, preferimos não assumir.
É por isso que a questão do esquecimento se torna central.
Há esquecimentos inocentes, próprios da fragilidade humana. Mas há também esquecimentos produzidos, organizados, administrados. Há esquecimentos que marginalizam. Há esquecimentos que protegem privilégios. Há esquecimentos que estruturam a vida social, política e económica. Quando uma sociedade se habitua a esquecer os seus excluídos, os seus vencidos, os seus mortos, os seus humilhados e os seus abandonados, o esquecimento deixa de ser uma falha da memória. Torna-se uma forma de governo.
Dom Ernesto percebeu isto com rara clareza.
Por isso, a sua intervenção não se limitou a apresentar um livro. Ela colocou uma questão maior: que tipo de filosofia é necessária para um país como Moçambique? A resposta implícita foi exigente. Não precisamos de uma filosofia que peça licença. Não precisamos de uma filosofia que venha de fora para confirmar a nossa legitimidade. Não precisamos de uma filosofia que apenas repita vocabulários alheios para parecer universal. Precisamos de uma filosofia capaz de pensar a partir de Moçambique, não contra o mundo, mas diante do mundo; não como provincianismo intelectual, mas como exercício de soberania cognitiva.
Moçambique não é apenas objecto de estudo. Moçambique é lugar de pensamento.

Esta afirmação é decisiva. Durante demasiado tempo, muitos povos africanos foram transformados em matéria-prima do saber dos outros. Outros vinham observar, classificar, interpretar, nomear e explicar. Nós aparecíamos como experiência, como caso, como problema, como território, como estatística, como sofrimento. Mas raramente aparecíamos como lugar originário de conceito.
A intervenção de Dom Ernesto rompe com essa hierarquia. Ela afirma que pensar a partir de Moçambique não é diminuir a filosofia. É devolver-lhe uma das suas tarefas mais antigas: interrogar a existência concreta dos homens no seu tempo, na sua cidade, na sua dor e na sua esperança.
Há aqui uma proximidade profunda entre a verdadeira teologia e a verdadeira filosofia. Ambas sabem que a palavra não é neutra. Ambas sabem que nomear é responsabilizar. Ambas sabem que uma comunidade que perde a sua linguagem perde também parte da sua alma pública. Mas a grandeza da intervenção de Dom Ernesto está precisamente em não confundir os lugares. Ele não procurou cristianizar a filosofia. Não reduziu a reflexão a uma catequese. Não transformou o livro numa ocasião de moralismo religioso.
Pelo contrário, reconheceu a necessidade de uma profecia secular.
Esta expressão é de grande inteligência. Ela preserva a força crítica da tradição profética, mas retira-a da tentação confessional. A profecia secular não fala em nome de uma revelação religiosa. Fala em nome da exigência pública da verdade, da justiça, da memória e da responsabilidade. É uma forma madura de relação entre fé, razão e espaço público. A fé não procura dominar a razão. A teologia não procura capturar a filosofia. Mas também não se cala diante da degradação da palavra comum.
Talvez seja esta a grandeza do gesto de Dom Ernesto: do lugar da sua cátedra episcopal, ele não veio dizer apenas quem sou eu. Veio dizer o que deve ser um filósofo.
O filósofo deve criar linguagem onde a linguagem pública se degradou. Deve criar vocabulário onde a propaganda substituiu o pensamento. Deve criar gramática onde a convivência perdeu sintaxe. Deve lembrar onde o esquecimento se tornou confortável. Deve perguntar quem está protegido pelo guarda-chuva da República e quem continua exposto à chuva. Deve interrogar quem segura o cabo desse guarda-chuva, para onde ele se inclina, quem fica coberto, quem fica fora, e por que razão a exclusão se repete mesmo quando mudam os discursos.
Mas o filósofo deve fazer tudo isto sem se transformar em rei e sem se refugiar no sacerdócio.
Se se transforma em rei, perde a distância crítica. Passa a falar a partir da lógica da conservação, da administração, do cálculo e da conveniência. Se se transforma em sacerdote, corre o risco de consagrar o existente, de transformar a ordem em destino, de oferecer consolo onde seria necessária interpelação. O profeta secular, pelo contrário, habita uma exterioridade responsável. Está fora do sistema, mas não fora do povo. Está distante do poder, mas não indiferente ao destino comum. Fala a partir da margem, mas fala para o centro da vida colectiva.
Moçambique precisa desta figura.
Precisa de filósofos que não sejam funcionários da legitimação. Precisa de intelectuais que não confundam prudência com silêncio. Precisa de académicos que não transformem o rigor em fuga. Precisa de uma palavra pública capaz de unir lucidez e responsabilidade, crítica e esperança, memória e futuro.
É por isso que a intervenção de Dom Ernesto deve ser saudada.
Não apenas porque foi brilhante. Não apenas porque foi eloquente. Não apenas porque leu com profundidade uma obra filosófica. Mas porque ofereceu uma imagem exigente da relação entre filosofia, país e responsabilidade pública. Mostrou que a teologia pode encontrar a filosofia sem a diminuir. Mostrou que um bispo pode reconhecer, numa obra filosófica, não uma ameaça à fé, mas uma aliada da responsabilidade humana.
A frase “profeta secular” ficará, provavelmente, como uma das formulações mais fortes daquele momento. Mas ela não deve ser lida como elogio pessoal. Deve ser lida como convocação. Não se trata de dizer que um homem deve ocupar sozinho esse lugar. Trata-se de compreender que a filosofia, em Moçambique, se quiser estar à altura da sua época, deve aceitar essa vocação difícil: ser palavra que recorda, pensamento que inquieta, linguagem que reconstrói, crítica que não destrói por prazer, mas que desmonta o falso para tornar possível uma casa comum.
O profeta Ageu chamava o povo à reconstrução do templo.
O profeta secular, hoje, chama-nos à reconstrução da República.
E a República não se reconstrói apenas com reformas legais, acordos políticos ou promessas institucionais. Reconstrói-se também quando voltamos a perguntar, com coragem, que palavras nos faltam para dizer a verdade do nosso país; que gramática nos falta para voltarmos a viver juntos; que memória precisamos de recuperar; que esquecimento precisamos de interromper; que guarda-chuva precisamos de endireitar para que ninguém continue condenado a viver fora da protecção comum.

Dom Ernesto compreendeu que o Memento para Moçambique é um pequeno livro com uma grande exigência. Como Ageu, não precisa de ocupar muitos versículos para tocar o essencial. O seu gesto é simples e radical: lembrar. Lembrar que a República só é República quando cobre todos. Lembrar que a filosofia só é filosofia quando não pede licença para pensar. Lembrar que Moçambique não é apenas lugar de sofrimento ou de crise, mas também lugar legítimo de pensamento, de criação conceptual e de profecia pública.
É por isso que a palavra de Dom Ernesto deve ser prolongada.
Ela não pertence apenas ao evento de apresentação de um livro. Pertence ao debate maior sobre aquilo que Moçambique espera dos seus filósofos, dos seus teólogos, das suas universidades e dos seus intelectuais. Espera que não sejam reis. Espera que não sejam sacerdotes da ordem existente. Espera que sejam, cada um à sua maneira, guardiões inquietos da possibilidade comum.
Porque, quando o templo público está em ruínas, o silêncio deixa de ser prudência.
Passa a ser cumplicidade
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