A Urgência de um Projecto Moçambicano-Centrado

Em Diálogo com Luca Bussotti

Caro Severino,

Acabo de ler o teu artigo publicado no Savana, intitulado “Entre o tempo e as circunstâncias”. Há uma frase, quase no fim da tua reflexão, que gostaria de retomar: “reconstruir lugares de sentido”, repletos de democracia, participação, inclusão e justiça social.

Adianto a minha preocupação: parece-me que Moçambique se aproxima de uma situação semelhante à queda do Império Romano. Diante de uma economia incapaz de sustentar o vasto mundo romano e com “bárbaros” às portas, o império dissolveu-se na indiferença das suas elites. Será que Moçambique não está a caminhar para uma dissolvência semelhante, marcada pela inconsciência do risco e pela disputa predatória de recursos pelas suas classes dirigentes?

Como “reconstruir lugares de sentido” num país cuja economia é vacilante, cuja desigualdade é extrema e cuja credibilidade internacional está abalada, como mostra a posição recente do FMI? A quem apelar num mundo fragmentado, numa África dividida e numa ordem internacional marcada pelo retorno da força e do poder militar?

Será que “contar com as próprias forças” é suficiente, ou devemos resignar-nos a uma nova forma de subordinação?

Com estima,

Luca

Resposta de Maputo

Caro Luca,

Quando escrevi que vivíamos num mundo sem norte, sem horizonte claro, tinha em mente uma questão clássica da filosofia da história: a estrutura do tempo. Perguntava-me se o nosso era um tempo propício - um kairós -, um tempo de libertação, um tempo soteriológico capaz de inaugurar novos começos, ou se caminhávamos para uma temporalidade escatológica, quase apocalíptica, em que as promessas (libertarias) da modernidade se desfazem. A minha reflexão partia dessa interrogação sobre o sentido do tempo histórico. Hoje sou obrigado a reconhecer que o meu diagnóstico corre o risco de ter sido anacrónico. Não estamos num vazio temporal. Novas bússolas se desenham. O problema é que essas bússolas são inquietantes, profundamente preocupantes e perigosas para a nossa liberdade e para a nossa soberania.

O discurso recente do Secretário de Estado norte-americano em Munique foi apresentado como reafirmação da parceria transatlântica. Mas o seu núcleo é outro: a convocação de uma “common heritage”, uma herança comum entre Estados Unidos e Europa, chamada a tornar-se novamente forte e afirmativa. Forte para continuar a moldar o mundo segundo os seus próprios valores. Trata-se de um projecto de hegemonia civilizacional. Quando se afirma que a Europa foi grande quando saiu de si e expandiu o seu modelo, é preciso recordar como essa expansão se fez: pela escravatura atlântica, pelo extermínio de povos indígenas, pelo colonialismo, pela ocupação violenta de territórios, pela imposição cultural e religiosa. O universal ocidental não se impôs por diálogo, mas por dominação. Reconvocar essa grandeza histórica sem reconhecer os meios que a tornaram possível é uma operação selectiva da memória. Não será hoje escravatura formal nem colonialismo clássico, mas são novas formas de subalternização, novos dispositivos de dependência e de disciplinamento económico e político.

Samuel Huntington falou da “guerra das civilizações”. Durante um tempo pensou-se que o confronto seria com o mundo árabe; mas esse mundo, apesar do petróleo, integra-se largamente na engrenagem estratégica ocidental e funciona dentro dela. O verdadeiro horizonte do confronto desloca-se para a China, potência civilizacional alternativa. O que se reactiva é uma lógica de competição hegemónica entre civilizações, em que uma se pretende normativa face às outras. As nossas sociedades africanas correm o risco de serem, novamente, terreno e não sujeito da história.

No plano africano, o que vimos em Addis Abeba é perturbador. O pan-africanismo, desde o seu início, foi um projecto de libertação e de unidade. Nasceu para unir povos do continente e da diáspora, para romper as cadeias da escravatura e do colonialismo, para afirmar a dignidade africana contra toda forma de tutela. Esse foi e continua a ser o seu espírito: libertar, unir, afirmar autonomia. O que assistimos hoje é o inverso. Convidar como referência central uma líder europeia de extrema-direita (Giorgia Meloni) que nunca renegou as suas raízes ideológicas, promotora da Frontex - que transformou o Mediterrâneo num espaço de morte para africanos - e que foi uma das poucas dirigentes europeias a apoiar publicamente a iniciativa de Donald Trump contra o presidente Maduro, não é simples diplomacia. É subalternização consentida. O que se viu em Addis Abeba foi a imagem de uma liderança que se inclina diante da hegemonia montante e reconvoca antigos centros de poder - inclusive marcados pela memória do fascismo - como se fossem mestres de orientação para África. Isso não é pan-africanismo. É a sua negação histórica.

Na África Austral, desde que o mundo entrou nesta nova fase de reorganização hegemónica, ninguém tuje, ninguém moje. Não há palavra estratégica comum, não há projecto regional claro. O silêncio é sintoma de uma região que ainda não decidiu como responder ao novo mapa do poder.

Chegamos a Moçambique. A nossa independência foi fruto de sacrifício e de luta contra a exploração colonial. Hoje enfrentamos outra forma de ameaça: dependência estrutural externa e apropriação interna do comum. O FMI impõe desvalorização, contenção salarial e reformas duras. Não é uma instituição neutra; foi criada, financiada e é dirigida pelas mesmas potências que hoje reafirmam agendas de hegemonia. Aceitar que a nossa política económica seja ditada por essas instâncias é aceitar soberania limitada. Ao mesmo tempo, a ajuda bilateral diminui ou é condicionada, os chamados “parceiros tradicionais” recuam ou redefinem prioridades segundo os seus próprios interesses, e o financiamento internacional vem acompanhado de condicionalidades que fragilizam o nosso tecido social.

A pergunta torna-se inevitável: o que pode permitir a Moçambique retomar soberania real? O que pode assegurar continuidade ao espírito da libertação? Se olharmos com rigor, veremos que a única base material concreta de autonomia são os nossos recursos naturais. Num mundo de transição energética, ouro, gás e minerais estratégicos raros são centrais. A Constituição da República é inequívoca: o solo e o subsolo pertencem ao Estado. Não se trata de formular uma nova ideologia, mas de cumprir a Constituição e o seu espírito. Se pertencem ao Estado, pertencem ao povo. Se pertencem ao povo, devem ser geridos pelo Estado com transparência e finalidade social.

Assumir plenamente esses recursos como património público não é gesto ideológico nem economicista. É uma decisão ética e existencial. É uma decisão de sobrevivência. Um projeto moçambicano-centrado significa pensar a partir de Moçambique, agir segundo os interesses de Moçambique, orientar os recursos para resolver os problemas concretos das populações moçambicanas. Sem recursos próprios, a soberania é retórica; com eles, torna-se possibilidade histórica.

E aqui respondo directamente à tua imagem dos bárbaros às portas de Roma - ou de Moçambique. Não há bárbaros a bater às portas enquanto festejamos. A barbaridade já está entre nós. A barbaridade chama-se guerra em Cabo Delgado. Chama-se fome de crianças. Chama-se escolas sem condições. Chama-se pobreza e desigualdade no meio da abundância. Chama-se captura do comum e incapacidade de decisão.

Esta posição que defendo não é política nem ideológica. É ética. É existencial. É profundamente filosófica porque diz respeito às condições da nossa própria sobrevivência enquanto comunidade histórica. Lutar contra essa barbaridade - interna e externa - significa assumir os nossos recursos como base da nossa soberania e da nossa dignidade. Significa recusar a repetição da dominação sob novas formas. Significa, em última instância, continuar a lutar por Moçambique.

Severino Ngoenha

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