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SAIAM DA FRENTE DOS NOSSOS RAIOS DE SOL
Diógenes, Macron e a nova servidão africana
Há momentos em que o filósofo deixa de poder falar calmamente. Há momentos em que pensar torna-se quase uma forma de sofrimento físico. Quanto mais se compreende a história, mais difícil se torna suportar a repetição infinita das mesmas humilhações. Kierkegaard dizia que a angústia é o destino daquele que vê o abismo da liberdade diante de si. Talvez seja esta a verdadeira angústia africana contemporânea: saber, compreender, reconhecer os mecanismos da dominação e, apesar disso, continuar a caminhar voluntariamente para eles.
Escrevo este texto tomado por essa indignação.
Enquanto os povos africanos continuam esmagados pela pobreza, pela dívida, pela dependência e pelas guerras, decorre no Quénia mais uma cimeira entre a França e África. Mais uma procissão diplomática. Mais um desfile de presidentes africanos correndo atrás do novo pastor do momento. Há poucos meses, em Addis Abeba, foi Giorgia Meloni recebida na União Africana como parceira indispensável do futuro do continente. Ontem foi África-França. Amanhã será África-Turquia, África-China, África-Rússia, África-União Europeia, África-Estados Unidos.
África com todos.
Mas quase nunca África consigo mesma.
E quando África se reúne consigo própria, os outros estão sempre sentados no centro da mesa, distribuindo promessas, financiamentos, estratégias, projectos e ilusões.
É isto que me revolta.
Porque já não se trata simplesmente de diplomacia. Trata-se de uma tragédia civilizacional. Trata-se da incapacidade africana de acreditar verdadeiramente em si própria. Continuamos à espera de salvadores externos. Continuamos à espera que os outros nos tragam desenvolvimento, estabilidade, riqueza e modernidade. Continuamos convencidos de que o nosso sol vem de fora.
Mas o que a história africana demonstra exactamente é o contrário.
Eles nunca nos trouxeram o sol.
Eles sempre se colocaram diante dele.
A imagem mais justa da relação entre África e o Ocidente talvez já não seja sequer a do colonizador e do colonizado. É a do pastor e das ovelhas. O Ocidente continua a comportar-se como pastor do mundo, e nós continuamos a correr atrás do primeiro cajado que aparece, acreditando que nos conduzirá à salvação.
Corremos para Paris.
Corremos para Washington.
Corremos para Bruxelas.
Corremos para Pequim.
Corremos para Moscovo.
Corremos para todos.
E enquanto corremos, esquecemo-nos de nós próprios.
A União Africana nasceu exatamente para impedir isto. Depois das lutas anticoloniais, depois de séculos de escravatura e colonização, o grande objectivo africano era simples: unidade e resistência. Resistência para não cairmos em novas formas de dependência. Unidade para que a África pudesse finalmente existir como sujeito da própria história.
Foi isso que Du Bois compreendeu.
Foi isso que George Padmore compreendeu.
Foi isso que Henry Sylvester Williams compreendeu desde o Congresso Pan-Africano de 1900.
Foi isso que Nkrumah repetiu obsessivamente.
Foi isso que Nyerere tentou construir.
Foi isso que Amílcar Cabral carregou até à morte.
Foi isso que Agostinho Neto sonhou.
Foi isso que Samora Machel tentou defender.
Foi isso que Marcelino dos Santos repetia constantemente: a liberdade africana seria continental ou seria novamente dependência.
Nkrumah tinha razão quando insistia: “Unamo-nos ou pereceremos.”
Hoje percebemos tragicamente a profundidade dessa frase.
Porque aquilo que vemos atualmente é exactamente o contrário da unidade africana. Vemos um continente fragmentado, vulnerável e permanentemente convocado para reuniões organizadas pelas próprias potências que continuam a controlar os mecanismos centrais da economia mundial.
E o mais doloroso é que nós sabemos tudo isto.
Sabemos o que foi Berlim.
Sabemos o que foi o Congo.
Sabemos o que foi o Biafra.
Sabemos o que foram os programas de ajustamento estrutural.
Sabemos o que significa o FMI.
Sabemos o que significa a dívida.
Sabemos o que significa a dependência monetária.
Sabemos o que significa a Françafrique denunciada.
Sabemos.
Sabemos também o que se passa hoje no Sahel.
Sabemos que há uma parte da juventude africana que decidiu finalmente levantar-se contra as novas formas de tutela. Sabemos que Mali, Burkina Faso e Níger representam hoje, para milhões de jovens africanos, uma tentativa desesperada de recuperar soberania. Pode-se discutir os métodos, pode-se discutir os regimes, mas não se pode ignorar a verdade histórica fundamental: o Sahel tornou-se símbolo da recusa africana da tutela permanente.
E o que fazemos nós?
Enquanto esses povos enfrentam sanções, pressões, isolamento e ataques, nós reunimo-nos alegremente com aqueles mesmos que tudo fazem para impedir que essa ruptura se consolide.
É impossível não sentir vergonha.
É impossível não sentir revolta.
No momento em que jovens africanos morrem para tentar libertar o continente das novas formas de dependência, os nossos dirigentes continuam sentados em conferências onde se fala de “parceria” entre desiguais, como se cinquenta e quatro países africanos devessem eternamente apresentar-se diante das potências mundiais como alunos diante do professor.
É aqui que Diógenes regressa com uma força extraordinária.
Quando Alexandre, senhor do império, perguntou ao filósofo o que podia fazer por ele, Diógenes respondeu: “Sai da frente do meu sol.”
Talvez a África precise hoje dessa coragem filosófica.
Não pedir mais tutela.
Não pedir mais autorização para existir.
Não pedir mais migalhas diplomáticas.
Não correr mais atrás dos novos Alexandres do mundo.
Macron, saia da frente dos nossos raios de sol.
FMI, saia da frente dos nossos raios de sol.
Banco Mundial, saia da frente dos nossos raios de sol.
Mas a frase deve agora tornar-se ainda mais dura.
Porque já não são apenas os Alexandres externos que impedem a luz de chegar até nós.
Também muitos dos nossos próprios dirigentes se colocaram diante do sol africano.
Dirigentes sem imaginação histórica.
Dirigentes sem coragem continental.
Dirigentes que confundem diplomacia com submissão.
Dirigentes incapazes de pensar África fora da dependência.
Dirigentes que vivem da gestão da precariedade africana.
Dirigentes integrados nos mecanismos internacionais de riqueza enquanto os seus próprios povos sobrevivem na pobreza.
Há muitos anos escrevi que a fraqueza da África não estava no território nem nas fronteiras coloniais. A verdadeira fraqueza estava na qualidade dos seus homens: capazes de defender todos os interesses do mundo, menos os interesses profundos do próprio continente.
Hoje essa frase tornou-se ainda mais dolorosa.
Talvez seja por isso que tantos jovens africanos já não esperam nada destas elites fatigadas. Talvez seja por isso que a juventude africana esteja novamente à procura de linguagem radical, de soberania radical, de ruptura radical.
E talvez seja precisamente aqui que a filosofia ainda tenha alguma utilidade.
Não para administrar o mundo existente.
Não para decorar conferências diplomáticas.
Não para legitimar dependências.
Mas para encorajar uma nova geração africana a reencontrar a coragem de dizer não.
Não aos pastores do mundo.
Não às ovelhas obedientes.
Não à dependência transformada em sistema.
Não às elites que já perderam a capacidade de imaginar liberdade.
E dizer finalmente, diante de todos os impérios externos e internos:
Saiam da frente dos nossos raios de sol.
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