- Severino Ngoenha
- Posts
- Moçambique é pobre... ou foi empobrecido?
Moçambique é pobre... ou foi empobrecido?
Se o nosso país tem gás, minerais estratégicos, terras e recursos cobiçados pelo mundo inteiro, por que razão continuamos dependentes da ajuda externa, do FMI, do Banco Mundial e da boa vontade dos outros?

Proponho que encaremos de frente uma verdade que muitos evitam dizer: a única fonte real de dinheiro que Moçambique tem está no seu solo e no seu subsolo.
E, no entanto, esses recursos foram sendo entregues, licenciados ou concedidos a indivíduos e grupos que depois negociam com empresas e países estrangeiros, enquanto a maioria do povo continua na pobreza.
Durante muito tempo, aceitámos como normal que Moçambique dependesse do exterior para financiar o seu funcionamento, as suas prioridades e até o seu imaginário de desenvolvimento. Chamámos a isso cooperação, ajuda, parceria. Mas vale a pena perguntar: ajuda para quem? Desenvolvimento para quem? Benefício para quem?
É por isso que, neste episódio, defendo que os recursos estratégicos de Moçambique devem ser reapropriados pelo Estado. Não por romantismo ideológico, mas por necessidade nacional. O Estado, se for sério, competente e transparente, tem mais força para negociar do que qualquer indivíduo isolado. E é o único que pode transformar essa riqueza em bem comum: escolas, hospitais, agricultura, casas resilientes, infraestruturas e capacitação da juventude.
Continuar a dar licenças a indivíduos que depois negociam com grandes companhias internacionais significa manter o país preso à mesma lógica: uma pequena minoria acumula e a maioria sobrevive. Isto não é compatível com o espírito de uma democracia social. Não é compatível com a ideia de independência. E não é compatível com a justiça que devemos uns aos outros como povo.
Por isso, proponho também que levemos esta reflexão mais longe: por que não convocar um grande debate nacional, e até um referendo, sobre a gestão dos recursos moçambicanos?
O episódio é, no fundo, um apelo à coragem. Coragem para rever contratos. Coragem para reequilibrar relações. Coragem para colocar o interesse nacional acima de benefícios privados. Coragem para dizer que aquilo que é de todos não pode continuar a servir apenas alguns.
Não se trata de slogan.
Trata-se de soberania real.
Trata-se de saber se o que a terra dá deve servir a todos ou apenas enriquecer alguns.
Reply