Os Papas sem Exércitos diante dos Reis Armados

Entre a Egolatria e a Reladolia - a partir de uma interpelação do teólogo Giuseppe Meloni

The Pope from behind

Um Papa fala de paz. Chefes de Estado respondem com bombas. Os mercados ajustam-se, os analistas justificam, os arsenais prosperam. E quase ninguém se detém diante do facto decisivo: a chamada comunidade internacional trata a guerra - sobretudo quando ela se exerce sobre o que hoje se designa por Sul Global - como rotina administrativa.

Foi neste contexto que uma interpelação do teólogo Giuseppe Meloni permaneceu a inquietar-me: não será a egolatria uma das fontes mais profundas dos males da política e da gestão das instituições? E não exigirá o nosso tempo uma outra racionalidade, fundada não no culto do eu, mas na primazia da relação?

A inquietação nascera ao assistir à recente tensão simbólica entre Donald Trump e Papa Leo XIV, depois de o Papa denunciar o delírio de omnipotência que ameaça a vida comum. A cena é contemporânea, mas a sua estrutura é antiga. Nela regressa a velha pergunta atribuída a Joseph Stalin: quantos batalhões têm os Papas? Em linguagem actual: quantos mísseis possuem? Quantos drones controlam? Que força militar representam?

A história, porém, gosta de ironias. A Santa Sé não dispunha de exércitos comparáveis aos grandes impérios do século XX e, no entanto, sobreviveu à dissolucão da União Soviética. A lição é severa: a força pode impor-se durante décadas; só a legitimidade atravessa o tempo.

Uma parte decisiva da política moderna habituou-se a confundir poder com capacidade de destruição. Quanto maior o arsenal, maior a autoridade. Quanto mais rápida a retaliação, mais séria a liderança. Quanto mais vasta a capacidade letal, mais respeitável o Estado. Mas esta lógica é intelectualmente pobre e moralmente perigosa. Confunde poder com medo, segurança com intimidação, estratégia com brutalidade, paz com silêncio imposto.

Quando uma civilização já só compreende a linguagem da força, entrou numa fase de regressão espiritual.

Na esteira da interpelação de Giuseppe Meloni, egolatria designa a transformação do eu em centro absoluto da ordem política. O dirigente deixa de se conceber como servidor provisório de instituições duráveis e passa a imaginar-se como origem pessoal da legitimidade. O Estado converte-se em espelho: tudo gira em torno da imagem do líder, da sua vontade, dos seus humores e da sua autopreservação.

Os sintomas são conhecidos: personalização extrema das instituições, desprezo pelos limites jurídicos, substituição da deliberação pelo anúncio, transformação dos adversários em inimigos e identificação entre vontade pessoal e destino nacional. Sob formas ideológicas diversas, vimos isto em Joseph Stalin, que liquidou progressivamente os seus opositores internos, incluindo Leon Trotsky; vemos traços disso em Donald Trump, num contexto em que multidões responderam com o lema No Kings; encontramos variantes em Vladimir Putin, que reforçou sucessivamente mecanismos constitucionais para prolongar a sua permanência no poder; em Xi Jinping, sob cujo mandato desapareceram limites temporais relevantes, aproximando a presidência de uma investidura vitalícia; e em numerosos regimes africanos onde constituições são dobradas para acomodar presidências indefinidas. Poder-se-ia ainda acrescentar Benjamin Netanyahu. Existe aqui o paradoxo Netanyahu: um dirigente chamado a responder por processos graves nos tribunais do seu próprio país, mas cujos julgamentos permanecem adiados enquanto a guerra prossegue. O conflito converte-se assim não apenas em estratégia militar, mas em mecanismo de sobrevivência política e tentativa de inscrição histórica numa narrativa de “grande Israel”.

Não se trata de afirmar que todos são iguais. Não o são. Trata-se de reconhecer uma mesma tentação antropológica: o ego no lugar da lei.

Muitos perguntam hoje: onde estão os contrapoderes? Onde os tribunais, os parlamentos, a imprensa livre, as universidades, a sociedade civil? A pergunta é legítima, mas talvez tardia. O problema não começa quando os contrapoderes falham já no exercício do governo. Começa quando falham antes, no acesso ao poder.

Se um sistema permite que figuras comprometidas com a degradação institucional atravessem incólumes todos os filtros de responsabilidade, então a crise é anterior à tomada de posse. Quando as portas de entrada deixam de funcionar, não surpreende que a casa inteira venha a ser capturada. Esta reflexão não diz respeito apenas aos Estados Unidos. Diz respeito a todas as democracias formais em que a legalidade subsiste, mas a legitimidade se desgasta.

Friedrich Nietzsche utilizou o termo niilismo para designar épocas em que os valores supremos perdem vigor. Algo semelhante ameaça hoje parte do Ocidente: conservam-se procedimentos, mas perde-se alma. É nesse vazio que emergem homens providenciais, chefes performativos, salvadores de ocasião. Quando o comum enfraquece, o ego avança.

Mas em muitos contextos africanos o niilismo assume outra forma. Não nasce do excesso de conforto institucional, mas da frustração histórica das promessas constitucionais. Prometeu-se soberania popular, alternância, justiça social e abertura do futuro; em numerosos casos, encontrou-se captura do Estado, manipulação constitucional e permanência oligárquica. O nada político aí não provém do cansaço dos valores, mas da sua traição reiterada. Soma-se ainda um problema adicional: formas institucionais importadas nem sempre dialogaram suficientemente com culturas políticas vivas e expectativas reais das populações.

Há ainda uma questão mais delicada, frequentemente deixada na sombra. Refiro-me ao modo como grandes potências democráticas aplicam selectivamente os princípios que proclamam universais. As relações entre sectores decisivos do poder americano e Israel suscitam interrogações sérias, não porque se negue o direito à segurança de qualquer povo, mas porque se observa a tolerância ou o apoio a práticas que levantam graves problemas de proporcionalidade, direitos humanos e respeito pelo direito internacional - como se vê tragicamente na Palestina, no Líbano ou em lógicas de guerra preventiva contra o Irão.

U.S. Marines with 1st Transportation Support Battalion, Combat Logistics Regiment 1, 1st Marine Logistics Group, I Marine Expeditionary Force, report in during the redesignation of 1st Transportation Support Battalion and deactivation of Landing Support Company and Support Company, 1st Transportation Support Battalion, on Camp Pendleton, California, Apr. 2, 2021. The redesignation of 1st Transportation Support Battalion to 1st Transportation Battalion and deactivation of Landing Support Company and Support Company were modernization initiatives conducted to best align the United States Marine Corps to support the National Defense Strategy.

O problema, porém, é mais vasto. Quando alguns Estados podem violar gravemente direitos humanos sem consequências proporcionais, enquanto outros são submetidos a sanções económicas severas, isolamento diplomático ou intervenção militar em nome desses mesmos princípios, instala-se uma dupla medida que corrói a ordem internacional. O que enfraquece não é apenas a democracia; enfraquece-se a própria ideia de universalidade do direito.

Importa recordar que o reconhecimento dos direitos humanos universais e a tentativa de organizar juridicamente a convivência entre Estados através do direito internacional representam talvez um dos pontos mais altos já alcançados pela consciência histórica da humanidade. Reconhecer em cada ser humano uma dignidade que antecede raça, fronteira, religião ou poder foi um salto civilizacional raro. Recuar nessa conquista, relativizá-la seletivamente ou instrumentalizá-la geopoliticamente é recuar no próprio progresso moral da espécie.

E há ainda outro sinal inquietante: o regresso do belicismo como reflexo automático. Entramos numa época em que demasiados conflitos parecem resolver-se por invasões, mísseis, drones e retaliações preventivas. Como se a palavra tivesse perdido o seu valor de vínculo. Como se negociar fosse fraqueza e destruir prova de seriedade. Toda a civilização começou, porém, quando a linguagem substituiu a vingança. Voltar a confiar mais nas armas do que na palavra é regressar, sob tecnologia avançada, a uma velha barbárie.

Se a doença do nosso tempo é a egolatria, qual poderá ser o antídoto? Num debate anterior mantido com Giuseppe Meloni, propusemos o conceito de Reladolia: uma concepção do poder fundada na relação e no serviço. Poder não como apropriação, mas como responsabilidade; não como domínio do outro, mas como cuidado do comum.

Poderíamos convocar Emmanuel Levinas e a sua ética da alteridade, Hannah Arendt e a centralidade do espaço público, a tradição cristã do serviço ou o republicanismo cívico. Mas desejo limitar-me a uma herança frequentemente citada e insuficientemente pensada: o Ubuntu africano.

A fórmula tornada célebre por John Mbiti - eu sou porque nós somos - não é um slogan sentimental. É uma ontologia social. Afirma que a pessoa não se realiza contra os outros, mas através de relações que a tornam possível. O eu não desaparece no nós; nasce nele. A individualidade não é negada: é fundada.

A tradição filosófica africana recorda-nos algo que o individualismo extremo esqueceu: ninguém se basta a si mesmo. A autonomia sem pertença degenera em solidão soberba; a liberdade sem vínculo converte-se em arbitrariedade.

Levar a sério a Reladolia implicaria reformular profundamente a vida pública. Lideranças seriam avaliadas menos pela capacidade de impor e mais pela capacidade de servir. Instituições tornar-se-iam espaços reais de participação e não apenas mecanismos formais de legitimação. A educação prepararia para a responsabilidade partilhada. A economia reencontraria a sua subordinação ao bem comum. A diplomacia orientar-se-ia pela cooperação e não apenas pelo cálculo estratégico. Nada disto elimina conflito ou divergência; impede apenas que o poder se transforme em religião do ego.

A interpelação do teólogo Giuseppe Meloni toca, por isso, o centro do nosso tempo. O problema não é apenas um dirigente, um país ou uma crise passageira. O problema é mais profundo: permitimos que a política esquecesse que governar é servir.

Sempre que a palavra perde valor, as armas ganham prestígio.

Sempre que o ego ocupa o lugar da lei, a democracia adoece.

Sempre que a força parece invencível, convém recordar: muitos impérios armados desapareceram diante de autoridades sem exército.

Entre a egolatria e a Reladolia joga-se uma parte decisiva do século XXI.

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