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Reconectar a África com Ela Mesma
Resistir ao conluio da força e do algoritmo que trabalha para se sobrepor ao direito - e aos seus fundamentos mais humanos
Talvez não seja só a força que se torna lei, mas num cenário tão novo como é o controle digital, haja outros contornos inexplorados e desconhecidos. Padre Eduardo Roca Oliver | Não dá para naturalizar o vocabulário de Carl Schmitt e esperar resultados diferentes. Pode ser cômodo continuar a fazer denúncias do hotel beira do abismo, lavando as mãos, sem articular qualquer horizonte de esperanca. Precisamos de esperança ativa e de saber o que não queremos ser. Professor Marcos Carvalho Lopes |
Recebi estas duas mensagens como quem recebe uma obrigação: a obrigação de não repetir a denúncia como hábito e de não confundir lucidez com resignação. Uma desloca o olhar para a nova gramática do controlo digital; a outra recusa a sedução de um realismo que, ao adoptar a linguagem da excepção, acaba por fabricar o seu próprio destino.
Volto, por isso, à inquietação que nomeei há pouco tempo em A Inominável Ordem do Mundo: as categorias com que nos habituámos a pensar o político - direito, soberania, instituições, consenso - parecem chegar atrasadas a um tempo que muda de forma com uma rapidez que desorganiza a própria inteligência do real. Quando a linguagem não alcança o mundo, o mundo impõe a sua linguagem. É nesse intervalo que a filosofia, como insistia Deleuze, deixa de ser ornamento: torna-se trabalho de nomeação, criação de conceitos capazes de iluminar o que estamos a viver, não para o adornar, mas para o contrariar.
A primeira intuição é simples e dura: a força não voltou; ela apenas mudou de regime e de escala. A força continua militar, económica e diplomática, mas acrescentou uma dimensão infraestrutural que a torna mais difusa, mais íntima e, por isso mesmo, mais eficaz. A dominação pode operar sem desfile de tanques: por dados, plataformas, pagamentos, reputações, visibilidades e invisibilidades. O que se impõe não é apenas uma violência visível; é uma capacidade de modular comportamentos, antecipar decisões e condicionar escolhas. A isto se chama governar antes do governo, impor a norma antes da lei, construir a obediência antes do decreto.
É aqui que a noção de “momento grociano” reaparece como metáfora produtiva do presente. No ensaio “El Nuevo Momento Grocio”, publicado a 22 de agosto de 2025 no Le Grand Continent, Paul Saffo formula uma tese tão simples quanto vertiginosa: a desintegração do ordenamento internacional tem uma causa “profunda” porque os Estados-nação “não cabem” no espaço digital. Se isto for correto, então a crise do direito internacional não é apenas geopolítica; é também tecnológica: a soberania deixa de ser só território e bandeira e passa a ser, cada vez mais, infraestrutura e controlo de redes. O “oceano” onde hoje se decide o destino das sociedades não é apenas o mapa terrestre; é o espaço de circulação de informação, influência, capital e medo. Quem controla as rotas digitais controla condições de possibilidade do debate público e, por extensão, do próprio direito.
Mas seria um erro imaginar que entrámos numa era puramente técnica, como se o algoritmo substituísse a política por neutralidade matemática. O algoritmo é uma forma de poder. E esse poder não flutua sozinho: ele procura alianças. É exatamente isso que Giuliano da Empoli descreve em A Hora dos Predadores (Gradiva, 2025): uma ecologia em que o poder político tradicional e o poder digital convergem, porque ambos ganham com a desintermediação, com o enfraquecimento das instituições lentas, com a política como choque, captura e aceleração. O predador não governa apenas pela força; governa pela velocidade. E, quando a velocidade se torna método, a regra passa a parecer obstáculo. É assim que a exceção se instala: primeiro como urgência, depois como hábito, por fim como normalidade.
A advertência que recebi - “não naturalizar Schmitt” - torna-se então decisiva. Carl Schmitt não é apenas um autor: é uma tentação. A tentação de chamar “realismo” ao que é, no fundo, uma pedagogia da brutalidade. A excepção, no seu vocabulário, não é acidente: é essência do soberano. O inimigo, no seu vocabulário, não é adversário: é princípio de identidade política. E isto é perigoso porque não descreve apenas; autoriza. Quando se normaliza essa linguagem, a sociedade aprende a aceitar como inevitável aquilo que deveria combater como inadmissível. E, quando isso acontece, o direito não morre por ausência: morre por corrosão interna, por aceitação gradual da sua irrelevância.
A frase atribuída a Steve Bannon - “flood the zone with shit” - ajuda a compreender a técnica contemporânea dessa corrosão. Trata-se de governar pela saturação: produzir ruído até que a distinção entre verdadeiro e falso se torne impraticável; exaurir a atenção pública até que o cidadão se torne incapaz de julgar; reduzir o espaço comum a um pântano onde tudo é possível porque nada é verificável. O ruído não substitui a força: prepara o terreno para que a força se torne “aceitável”, “inevitável”, “legítima”. Quando a esfera pública é afogada, a excepção passa a parecer racional; quando a excepção parece racional, o direito passa a parecer ingenuidade.
É por isso que a esperança, neste texto, não pode ser sentimental. Ela tem de ser activa, disciplinada, organizada. E começa por uma negativa clara, porque um povo que não sabe o que não quer ser já começou a ser governado por outrem. Não queremos ser zonas de extração com bandeira. Não queremos ser Estados reduzidos a corredores logísticos de interesses alheios. Não queremos sociedades que substituem o debate por insulto e o adversário por inimigo. Não queremos multidões governadas por ruído, incapazes de distinguir o essencial do manipulado. Não queremos que a juventude africana continue a ser o combustível barato de guerras que se apresentam como destino, quando são, quase sempre, economia de recursos, rendas e tutela.
Mas recusar não basta. Há que propor. E há que propor sem utopia vazia: com itinerário. Aqui, o pano de fundo de Lomé é mais do que um evento; é um sinal. O 9.º Congresso Pan-Africano, realizado em Lomé (Togo) de 8 a 12 de dezembro de 2025, recoloca no centro o imperativo da união entre o continente e a sua diáspora como condição de um pan-africanismo renovado. Não é apenas retórica identitária: é tentativa de transformar memória em capacidade. O congresso surge num tempo em que guerras, disputas tecnológicas e rearranjos geopolíticos empurram África e as suas diásporas para a periferia - e, precisamente por isso, exige uma resposta que não seja só moral, mas estratégica.
O que se destaca, como fio condutor, é a ideia de reconexão: reconectar o continente consigo mesmo e com as suas diásporas para deixar de existir como dispersão governável. Reconectar, aqui, é mais profundo do que “unir”: é reorganizar a força histórica africana para que ela exista como sujeito. E é neste ponto que a provocação de Samir Amin pode ser invertida com proveito: a tarefa não é “desconectar a África do mundo”, como tese de choque; a tarefa é reconectar a África com ela mesma - e isso inclui de modo central as suas diásporas. Reconectar não é fechar-se: é parar de existir como periferia dispersa e começar a existir como corpo articulado. Só uma África reconectada consigo mesma consegue negociar sem ser negociada; só uma África reconectada consigo mesma consegue transformar recursos em futuro, e não em necropolítica.
Chamo necropolítica pelo seu nome porque, no fundo, é disso que se trata quando o direito é suprimido em benefício de interesses: transformar a vida humana em variável descartável. E o continente sabe, por experiência, que quando a excepção vira regra os mortos deixam de ser escândalo e passam a ser estatística. A reconexão africana é, por isso, um gesto ontológico: não é apenas política; é defesa do humano.
É também por isso que a resistência de que falo não é apenas resistência “contra” alguém; é resistência “por” alguma coisa: por uma forma de vida coletiva que não aceite a substituição do direito pela força, nem a substituição da política pelo ruído, nem a substituição da soberania pela dependência técnica. O que está em jogo é impedir que o conluio entre força e algoritmo se torne o novo soberano, operando acima do direito e, sobretudo, acima dos seus fundamentos mais humanos.
E, para fechar com a gravidade que o tempo exige, convém escutar um aviso que circula na nossa contemporaneidade africana sem pedir licença às boas maneiras do discurso: o capitão Ibrahim Traoré falou de um “hiver noir” - um “inverno negro” - para nomear a ameaça de instabilidade, violência e desestabilização que se aproxima da África Ocidental e para convocar os africanos à lucidez, unidade e resistência. Não precisamos romantizar o sofrimento, nem fazer culto do sangue. Mas precisamos reconhecer a verdade política contida na metáfora: objetivos históricos não se alcançam sem sacrifício.
Sacrifício, aqui, não é morte. Sacrifício é disciplina de vida: renunciar às guerras fratricidas; recusar a captura do Estado; suportar os custos da unidade; pagar o preço de construir instituições; investir em autonomia intelectual e tecnológica; construir convergência entre continente e diásporas; recuperar a palavra como espaço de verdade contra a indústria do ruído. Se o mundo caminha para um tempo em que a força se digitaliza e o algoritmo aprende a governar o direito, então o imperativo africano pode ser dito numa só frase, sem ornamento: reconectar para existir.
E esta é a conclusão que não deve soar como consolo, mas como ordem interior: ou fazemos da reconexão africana uma disciplina histórica - já -, ou aceitaremos ser, mais uma vez, o lugar onde os outros resolvem o seu mundo à custa do nosso.
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