Atelier Filosófico na Beira III

A literatura, a música e a criação artística como a fundadora pré-história da nossa consciência nacional.

A realização do Atelier Filosófico na cidade da Beira constituiu um dos momentos mais significativos da história desta iniciativa que, há mais de uma década, reúne mensalmente cidadãos de diferentes gerações e profissões para reflectirem sobre os grandes desafios nacionais. A deslocação do Atelier para a Beira não significou apenas uma mudança geográfica. Significou reconhecer que Moçambique se pensa a partir de muitos lugares e que a construção do comum exige a participação de todas as as regiões do país.

Praça do Município de Beira

Beira, Moçambique (Foto: VOA, Domínio Público).

A (segunda) mesa reuniu Maria Sá Pinto, jornalista, escritora e dinamizadora cultural; José Malaire, empresário e autor que tem reflectido longamente sobre a descentralização do State; e Jacinto Rombe, filósofo e professor de Filosofia na Universidade Púnguè, na Beira. A diversidade das suas formações permitiu alargar ainda mais o horizonte do debate.

José Malaire insistiu na necessidade de uma descentralização efectiva, mostrando que uma verdadeira unidade nacional exige um Estado mais próximo dos cidadãos e dos territórios que o constituem. Jacinto Rombe chamou a atenção para a responsabilidade filosófica de pensar criticamente o país, lembrando que nenhuma transformação colectiva é possível quando a inteligência pública abdica da sua função interrogativa. Maria Sá Pinto, por sua vez, abriu uma perspectiva absolutamente nova no percurso dos nossos Ateliers Filosóficos.

Pela primeira vez, a arte surgia não como simples expressão cultural, mas como problema filosófico e político.

A sua tese era simultaneamente simples e profundamente fecunda: lutar por Moçambique hoje implica convocar as artes para participarem na reconstrução da nação.

A literatura. A música. A pintura. A escultura. O teatro. A poesia. A dança.

A criação artística deixa então de ocupar o lugar secundário que muitas vezes lhe atribuímos para assumir uma função decisiva na formação da consciência colectiva.

A arte educa. A arte preserva a memória. A arte denuncia injustiças. A arte aproxima gerações.

A arte cria linguagem para aquilo que uma sociedade ainda não consegue dizer politicamente.

Sobretudo, a arte possui uma qualidade rara: consegue imaginar o país antes de ele existir plenamente na realidade.

Esta observação remete-nos para uma intuição profunda da própria história moçambicana.

Eduardo Mondlane compreendeu isso de forma extraordinariamente lúcida em Lutar por Moçambique. Muito antes da independência política, identificou o papel desempenhado por José Craveirinha, Malangatana Valente Ngwenya, Noémia de Sousa e tantos outros criadores que ajudaram a construir uma consciência nacional quando ela ainda não possui expressão política organizada. Antes da luta armada houve uma longa preparação cultural. Primeiro nasceram as palavras. Depois nasceu a consciência. Só mais tarde nasceu a organização política.

Going to the Independence war and saying goodbye by Malangatana

Malangatana V. Ngwenya, "Going to the Independence war and saying goodbye" (1964) — Centro de Arte Moderna Manuel de Brito.

A independência teve, portanto, uma profunda pré-história artística.

Também depois da independência encontramos esse mesmo fenómeno.

A independência teve, portanto, uma profunda pré-história artística. Também depois da independência encontramos esse mesmo fenómeno. A música revolucionária ajudou a consolidar um sentimento nacional comum.

O teatro popular aproximou comunidades separadas pela guerra.

Os escultores que transformaram armas em obras de arte mostraram simbolicamente que a criação pode vencer a destruição.

E, mais recentemente, escritores, músicos, dramaturgos, rappers, pintores e escultores continuam a interrogar criticamente o presente, recusando aceitar a realidade como um destino definitivo.

As artes nunca deixaram de lutar por Moçambique.

Talvez nós é que nem sempre lhes tenhamos reconhecido esse lugar fundador.

Foi precisamente neste ponto que a intervenção de Maria Sá Pinto fez reaparecer uma interrogação antiga.

Há alguns anos, em “A Impossibilidade do Momento Moçambicano”, foi colocada uma pergunta que permanece importante: poderá Moçambique produzir uma forma própria de pensar a sua história, interpretar a sua experiência colectiva e orientar a sua ação no mundo? Na altura, a resposta era prudente. Nem a filosofia, nem a sociologia, nem a ciência política pareciam ainda ter produzido um núcleo suficientemente consolidado que pudesse justificar a existência de um verdadeiro momento moçambicano. Paradoxalmente, era no domínio da criação artística que começavam a surgir alguns dos sinais mais promissores dessa possibilidade.

Hoje, essa hipótese parece merecer uma nova reflexão.

Assistimos a uma extraordinária expansão da criação artística moçambicana.

Não apenas em quantidade.

Mas sobretudo na diversidade dos lugares de onde ela emerge.

Na literatura. Na música. Na poesia. Na pintura. Na escultura. No rap. No teatro. No cinema. Nas linguagens digitais.

E, sobretudo, numa geração jovem que já não espera autorização para criar.

Basta pensar na força crítica de Azagaia, na extraordinária reinvenção escultórica de Gonçalo Mabunda, na pintura de Gemusse, na emergência contínua de novos escritores oriundos das diferentes províncias do país e em tantos outros criadores que vão desenhando novas formas de imaginar Moçambique.

Expressiva textura e cor de obra de arte abstrata

Podemos discutir a maturidade estética de algumas dessas obras.

Podemos discutir os seus estilos.

Podemos discutir as suas linguagens.

Mas já não podemos ignorar a intensidade criadora que atravessa a sociedade moçambicana.

Talvez seja precisamente aqui que a reflexão de Walter Benjamin adquire toda a sua actualidade.

Benjamin compreendeu que a arte não se limita a representar aquilo que existe. Ela modifica a nossa forma de perceber o mundo. Ao transformar a percepção do presente, transforma igualmente aquilo que nos parece historicamente possível. A criação artística abre horizontes que ainda não existem na realidade, mas que começam a existir na imaginação colectiva.

Primeiro muda a imaginação. Depois muda a história.

É por isso que, tantas vezes, a arte precede a política.

Ela antecipa futuros que as instituições ainda não conseguem construir.

Talvez seja precisamente essa a missão mais profunda das artes em Moçambique.

Não substituir a política.

Não substituir a economia.

Não substituir o direito.

Mas tornar possível aquilo que todos eles pressupõem: a capacidade de um povo acreditar que o futuro pode ser diferente do presente.

Depois de termos refletido sobre o Estado, a cidadania, a justiça, a democracia e as relações internacionais, compreendemos que a luta por Moçambique permaneceria incompleta se esquecesse a força transformadora da criação artística.

Porque uma nação não começa apenas quando organiza instituições.

Começa quando aprende a imaginar-se.

Talvez seja precisamente esse o maior desafio do nosso tempo.

Construir um país mais justo exige reformas políticas, económicas e sociais. Mas exige igualmente um novo imaginário colectivo. E esse imaginário começa, quase sempre, pelas artes.

Se assim for, lutar por Moçambique significa também criar Moçambique.

E talvez seja precisamente aí que as artes deixem de acompanhar a história para voltarem, como tantas vezes aconteceu entre nós, a precedê-la.

Severino Ngoenha

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