Diálogo com Bóia Efraime Júnior

A violência que herdámos continua a viver entre nós

I. Lutar por Moçambique: quando o problema somos também nós

Como reconstruir uma comunidade humana quando a violência deixou de ser apenas um acontecimento e se tornou uma maneira de viver, de exercer o poder e de olhar uns para os outros?

Foi esta a interrogação que orientou o nosso último Atelier Filosófico, integrado no ciclo Lutar por Moçambique Hoje. Depois de termos discutido as instituições, a democracia e a capacidade de produzir, quisemos deslocar o olhar para uma dimensão mais inquietante: aquilo que acontece dentro de nós e nas relações que estabelecemos uns com os outros.

Porque a violência não se esgota nas guerras, nos disparos, nas agressões ou na repressão. Há a violência da fome e das desigualdades, a violência doméstica, as violações de meninas e mulheres, as humilhações quotidianas e os assassinatos de natureza política. Há também a violência que se manifesta quando, em nome de uma causa, se destroem escolas, hospitais e casas, se levantam barricadas ou se impede alguém de trabalhar. São violências de natureza e responsabilidade diferentes, mas todas atingem a dignidade humana e corroem a possibilidade de vivermos juntos.

Convidámos, por isso, Bóia Efraime Júnior, psicólogo e psicanalista, para nos ajudar a compreender uma questão simultaneamente histórica, psicológica e filosófica: como pode uma sociedade marcada por sucessivas experiências de violência voltar a reconhecer-se como comunidade humana?

Não pretendíamos substituir a política pela psicologia, nem confundir vítimas e responsáveis. Queríamos compreender por que razão continuamos a reproduzir, nas nossas relações quotidianas, mecanismos de medo, humilhação e dominação que tantas vezes denunciamos nas instituições.

Talvez lutar por Moçambique hoje exija também a coragem de nos interrogarmos sobre aquilo que nós próprios nos tornámos.

II. A voz de Bóia Efraime Júnior: a violência que permanece em nós

Bóia Efraime Júnior colocou-nos diante de uma realidade perturbadora: a violência não constitui apenas uma sucessão de acontecimentos traumáticos. Pode transformar-se numa experiência social interiorizada, reproduzida entre gerações, instituições e indivíduos.

A experiência colonial foi decisiva nesse processo. Não se tratou apenas de dominar territórios, mas de negar a humanidade de populações inteiras. A independência rompeu com a ordem colonial, mas não apagou automaticamente os seus efeitos. À violência colonial sucederam-se outras experiências traumáticas: a guerra, a repressão, as inseguranças colectivas e novas formas de violência política e social.

Na perspetiva apresentada por Efraime, os traumas não elaborados continuam a manifestar-se nas relações humanas. O medo transforma-se em desconfiança; a insegurança pode alimentar a necessidade de controlo; o sofrimento não reconhecido pode converter-se em agressividade dirigida contra outros. A violência reproduz-se, assim, nas famílias, nas escolas, nas empresas, nos transportes e nas relações entre vizinhos.

Quando uma sociedade vive em estado de alerta permanente, o outro começa a ser percebido como ameaça. A empatia enfraquece, a desconfiança instala-se e a agressividade corre o risco de se tornar uma resposta habitual à insegurança.

Mas Efraime recusou transformar este diagnóstico numa condenação definitiva. Insistiu na necessidade de conhecermos verdadeiramente Moçambique, incluindo as experiências de sofrimento que permanecem silenciadas e que as explicações políticas ou jurídicas nem sempre conseguem alcançar.

A sua proposta foi a criação de espaços seguros de palavra e escuta, onde as pessoas possam falar das suas dores, reconhecer as dos outros e reconstruir relações de confiança.

Relatou experiências de apoio psicológico e de encontros comunitários durante períodos de violência, nas quais pessoas divididas pelas suas pertenças políticas descobriram responsabilidades comuns ao reconhecerem-se como pais preocupados com os filhos, vizinhos expostos aos mesmos perigos e seres humanos igualmente vulneráveis.

A reconstrução começa, portanto, por uma capacidade aparentemente elementar, mas profundamente comprometida: reconhecer o sofrimento do outro como sofrimento humano.

III. Da violência herdada à reconciliação connosco próprios

Saí deste encontro com uma inquietação filosoficamente decisiva: e se o maior obstáculo à construção de Moçambique não estivesse apenas nas instituições que criámos, mas também na maneira como aprendemos a olhar uns para os outros?

Frantz Fanon mostrou-nos que o colonialismo não ocupa somente territórios. Ocupa também a consciência, fere a imagem que o colonizado constrói de si próprio e perturba a sua relação com os outros. A descolonização política não coincide, portanto, necessariamente com a descolonização das nossas subjectividades.

Mas seria demasiado cómodo explicar toda a nossa violência pelo passado. A história ajuda-nos a compreender aquilo que herdámos; não pode justificar aquilo que continuamos a praticar. Não somos necessariamente culpados das feridas que recebemos, mas somos responsáveis pela maneira como lidamos com elas e pelo que transmitimos às gerações seguintes.

Erich Fromm, em O Medo à Liberdade, mostrou como a insegurança perante a liberdade pode conduzir à submissão à autoridade ou ao desejo de dominar. Gilles Deleuze e Félix Guattari, em O Anti-Édipo, ajudam-nos a compreender que o desejo não existe separado das relações sociais e políticas. A dominação não se reproduz apenas porque nos é imposta; pode instalar-se nos nossos hábitos, nos nossos desejos e na maneira como concebemos o poder.

A vítima de ontem pode tornar-se o dominador de amanhã, não porque a violência seja o seu destino, mas porque não encontrámos formas de interromper a sua reprodução.

É precisamente aqui que a intervenção de Bóia Efraime Júnior me fez regressar à esperança que depositei no Diálogo Nacional Inclusivo. Esperava que ele fosse muito mais do que uma negociação entre partidos, uma distribuição de posições ou a procura de compromissos institucionais. Esperava que se tornasse um grande momento de catarse nacional, no qual Moçambique pudesse encontrar-se consigo próprio, confrontar-se com as violências sofridas e praticadas, reconhecer as suas feridas e decidir que não queria continuar a reproduzi-las.

Não imaginava uma gigantesca sessão de terapia de grupo, nem uma cerimónia destinada a absolver culpados. Imaginava um processo de reencontro entre comunidades, gerações, regiões e pertenças políticas; entre os que sofreram e os que fizeram sofrer; entre os que deixaram de se falar e os que nunca tiveram oportunidade de se escutar.

A experiência sul-africana da Comissão da Verdade e Reconciliação, apesar das suas insuficiências, mostrou a importância de criar um espaço público de testemunho, reconhecimento e confronto com a memória da violência. No Ruanda, os tribunais comunitários gacaca procuraram, por outros meios e entre muitas controvérsias, enfrentar a destruição dos vínculos sociais. Nenhuma destas experiências resolveu todos os conflitos. Mas ambas colocaram uma pergunta que também nos pertence: como pode uma sociedade voltar a viver consigo própria depois de os seus membros terem aprendido a temer-se e a destruir-se mutuamente?

Em Moçambique, receio que estejamos a reduzir uma oportunidade histórica à negociação política e à juridicização dos conflitos. A justiça é indispensável, sobretudo perante crimes graves e violações de direitos. Mas uma sentença não reconstrói necessariamente a confiança, tal como um acordo entre dirigentes não reconcilia automaticamente os cidadãos.

A justiça procura estabelecer responsabilidades pelo que aconteceu; a reconciliação procura também tornar possível aquilo que ainda não aconteceu: voltarmos a viver juntos de outra maneira. Uma não substitui a outra.

E precisamos de dizer claramente aos nossos jovens que matar, violar, roubar, incendiar escolas ou hospitais, destruir casas e impedir violentamente a liberdade dos outros não são formas aceitáveis de convivência, mesmo quando existe uma causa legítima a defender. Da mesma maneira, nenhuma autoridade pode invocar a ordem pública para justificar abusos contra os cidadãos. O reconhecimento das injustiças sociais e políticas não dispensa ninguém da responsabilidade pelos seus actos.

Mas esta aprendizagem colectiva não se fará apenas nos tribunais. Exige um espaço moral onde possamos reconhecer erros, escutar vítimas, assumir responsabilidades e descobrir que o perdão, quando livremente concedido, pode abrir caminhos que a punição, por si só, não consegue abrir.

É este o sentido da catarse nacional que continuo a considerar necessária: não esquecer o passado, mas impedir que ele continue a governar as nossas relações. Não apagar as diferenças, mas retirar-lhes o poder de nos transformar em inimigos.

A nossa humanidade, tantas vezes velada pelo medo e pela violência, não desapareceu. O que ficou comprometido foi também a possibilidade de construirmos uma moçambicanidade mais autêntica, que não se esgote nas pertenças partidárias, regionais, étnicas ou raciais, mas faça delas expressões de uma comunidade mais ampla.

Por isso, deixo um desafio: que o Diálogo Nacional Inclusivo, enquanto processo ainda em curso, recupere a dimensão ética e moral de que tanto necessitamos. Que não se limite a aproximar lideranças, mas procure reunir a nação consigo própria. E, se esse espaço não puder cumprir tal missão, que tenhamos a coragem de criar outro, verdadeiramente aberto às comunidades, às vítimas, às memórias e às responsabilidades de todos.

Precisamos de um compromisso nacional que recuse a violência em todas as suas formas - política, social, económica, doméstica e quotidiana - e faça do respeito pela dignidade humana o fundamento da nossa vida comum.

A reconciliação não é apenas um acordo entre adversários. É a possibilidade de uma sociedade se reencontrar consigo própria, reconhecer as suas feridas e decidir que não quer continuar a reproduzi-las.

O desafio que lanço é este: façamos desse reencontro o princípio de uma nova moçambicanidade. Não apenas um país onde deixemos de nos agredir, mas uma comunidade onde já não precisemos de negar a humanidade dos outros para afirmarmos a nossa.

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